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#Repost Encontro e transmissão: carta aos professores

Publicamos este texto durante a semana dos professores do ano passado, na página do Além da Tela (laboratório que organiza o Simpósio). Além do feedback positivo que recebemos dele, o conteúdo é muito apropriado à várias discussões que faremos durante o evento em maio.

A equipe do Além da Tela se debruçou em pesquisas sobre as incidências da cultura digital nas escolas. As conclusões deste trabalho estão em fase de finalização, e quem for ao Simpósio, terá novidades quentinhas sobre isso. 😉 Aproveite para fazer a sua inscrição. Se você já fez, aproveite a leitura do texto a seguir e traga as suas questões para discutir com a gente!

Vivemos a era digital. As novas tecnologias modificam as relações dos sujeitos com o tempo e com o espaço. A internet introduz a ilusão de proximidade. Num clique, estamos aqui e lá. No ambiente virtual, as pessoas encontram seus pares e formam seus grupos, buscando o apoio e o fortalecimento das suas ideias pela via da segregação às diferenças. A formação especular virtual propicia o apagamento da dimensão de alteridade.

Vemos, a todo tempo, manifestações de ódio e de intolerância nas redes. Mas, essa violência vociferada nas redes sociais tem ultrapassado o ambiente virtual e entrado em nossas casas, em nossas escolas, em nossas relações com o outro.

Sabemos, com Freud, que são as pequenas diferenças que formam as bases dos sentimentos de hostilidade e estranheza. Há sempre algo de inassimilável no outro que provoca em nós o sentimento de hostilidade, pois nos remete ao mais íntimo e estranho que nos habita. Mas, se isso não é novidade, não é possível dizer o mesmo sobre como isso vem se manifestando ultimamente. A violência contra LGBTs, negros, pobres, mulheres e toda e qualquer minoria que traga consigo a marca de uma diferença é crescente e cada vez mais explícita.

O que diferencia a criança do adulto é a forma de se responsabilizar pelo seu desejo. Mas vivemos a época da criança generalizada. É porque “não existe gente grande” que estamos no caminho da segregação, aponta Lacan. Se o Outro não está lá para amparar e orientar o sujeito, apontando o caminho da responsabilização, como escapar da violência e da intolerância?

Acreditamos que o professor tem um papel fundamental no contexto atual. O encontro virtual não substitui o presencial. O professor transmite o desejo de ensinar e de aprender, além de valores e ideais. A escola é muito mais do que o lugar do conhecimento acadêmico, é um lugar de encontro dos corpos, das diferenças.

Escutando os professores, escutamos sobre as péssimas condições de trabalho, sobre as violências que sofrem no dia a dia, sobre a sensação de impotência diante das novas tecnologias, sobre a exaustão, sobre a vontade de desistir. Mas, escutamos também o desejo implicado na transmissão, que os faz resistir às dificuldades e a continuar sonhando. Não há aluno que não se lembre com afeto “daquele” professor, aquele que lhe deu um lugar, que apostou nele, que fez com que ele acreditasse na vida e que se tornou, para ele, inesquecível!

Se sabemos, com a psicanálise, que é com desejo que se aprende, sabemos também que com desejo se ensina. A transferência é fundamental para a aprendizagem e a transferência – sempre vale lembrar – é amor de transferência.

Se a informação, agora ao alcance dos dedos, faz com que o professor sinta que perdeu o seu lugar, é importante dizer que o saber se dá no corpo. Não há algoritmo que substitua a presença ativa e o olhar vivo do professor. Não há google capaz de ensinar o que só o encontro com o desejo do professor transmite. Não há tutorial capaz de superar a potência da experiência.

Há muito o que dizer. Mas, e principalmente, há coisas que não podem ser ditas simplesmente em nome da “verdade” e da “transparência”, sob o risco de que as palavras se tornem atos de violência e, nesse caso, teríamos falhado enquanto sociedade. Esse momento não é outro senão o de uma escolha. Para sermos “gente grande”, precisamos escolher. Que as escolhas, então, sejam pautadas no valor da transmissão e no uso responsável da palavra, comprometida com o respeito às diferenças, elementos que conferem ao professor um lugar fundamental.

Além da Tela – Psicanálise e Cultura Digital 

Referências Bibliográficas:

Freud, S. (1930/1974). O mal-estar na civilização.
Lacan, J. (1968/2003). Alocução sobre as psicoses da criança.

 

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